Sábado, 24 de Fevereiro de 2007

Poesias de Fernando Pessoa - Reportagem

Autor: Adolfo Casais Monteiro (Introdução e Selecção)
Editor: Editorial Presença
Nº de págs.: 224
Formato: 21 x 14 cm

Poesia de Fernando Pessoa

A mais recente edição reproduz integralmente a obra Poesia de Fernando Pessoa - Introdução e Selecção de Adolfo Casais Monteiro, 2ª edição, 1945, Editorial Confluência, Lisboa. Trata-se de uma compilação abrangente e criteriosamente seleccionada, que compreende todas as facetas da obra de Fernando Pessoa. Nela se encontram reunidos os momentos mais significativos da sua poesia ortónima bem como da dos seus principais heterónimos - Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. De extremo interesse é ainda a inclusão nesta obra da carta sobre a origem dos heterónimos que o poeta escreveu a Casais Monteiro, Dirigida por um profundo conhecedor do universo pessoano, esta antologia constitui, a todos os títulos, uma perspectiva enriquecedora da obra daquele que é um dos poetas maiores da literatura portuguesa.

Dizem?

Esquecem.

Não dizem?

Dissessem.

Fazem?

Fatal.

Não fazem?

Igual.

Porquê

Esperar

- Tudo é

Sonhar.

Alberto Caeiro (15 de Abril de 1889 - 1915) é considerado o mestre dos heterónimos de Fernando Pessoa, apesar da sua pouca instrução. Poeta ligado à natureza que despreza e repreende qualquer tipo de pensamento filosófico, afirma que pensar retira a visão. Proclama-se assim um anti-metafísico. À superfície é fácil reconhecê-lo pela sua objectividade visual que faz lembrar Cesário Verde, sendo este citado muitas vezes nos seus poemas pelo seu interesse pela natureza, pelo verso livre e pela linguagem simples e familiar. Apresenta-se como um simples “guardador de rebanhos” que só se importa em ver de forma objectiva e natural a realidade. É um poeta de simplicidade completa e dá especial importância ao acto de ver. Considera que a sensação é a única realidade para nós. Fernando Pessoa formulou 3 princípios do sensacionismo: 1- Todo o objecto é uma sensação nossa; 2- Toda a arte é a conversão de uma sensação em objecto; 3- Portanto, toda a arte é a conversão de uma sensação numa outra sensação. E Caeiro foi o heterónimo que melhor interpretou esta tese pois só lhe interessava vivenciar o mundo que captava pelas sensações recusando o pensamento metafísico.
 

Ricardo Reis (1887 - 1935) é um dos três heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa. Nascido na cidade do Porto. Estudou num colégio de jesuítas, formou-se em medicina e, por ser monárquico, expatriou-se espontaneamente desde 1919, indo viver no Brasil. Era latinista e semi-helenista. Ricardo Reis apresenta-se sendo um poeta de formação clássica, de serenidade epicurista, "pagão por carácter", segue Caeiro no amor da vida rústica, junto da natureza. Ricardo Reis aceita com calma a lucidez, a relatividade e a fugacidade das coisas, como o demonstra no poema “ Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do Rio”. Mas, enquanto o Mestre, menos culto e complicado é (ou pretende ser) um homem franco e alegre, Reis é um ressentido que sofre e vive o drama da transitoriedade doendo-lhe o desprezo dos deuses. A filosofia de Ricardo Reis é a de um epicurista triste, pois defende o prazer do momento (Carpe Diem) como o caminho para a felicidade, contudo, afligem-se com a imagem antecipada da Morte e a dureza do Fado. Daí, ele buscar o refúgio dum epicurismo temperado de algum estoicismo, tal como em Horácio, seu modelo literário: "Abdica e sê rei de ti próprio". Apesar deste prazer na procura pela felicidade que deseja alcançar, considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranquilidade, ou seja, a ataraxia sente que tem de viver em conformidade com as leis do destino. Sendo ele um poeta lúcido e cauteloso, constrói, para si urna felicidade - relativa, mista de resignação e moderado gozo dos prazeres que não comprometam a sua interior. Trata-se de fruir, muito consciente e ponderadamente, as coisas acessíveis sem demasiado esforço ou risco. Portanto torna-se num poeta indiferente à dor e ao desprazer numa verdadeira ilusão da felicidade, conseguida pelo esforço estóico lúcido e disciplinado. Latinizante no vocabulário e na sintaxe, o seu estilo é densamente trabalhado e revela ainda, muito claramente, o seu tributo à tradição clássica no uso de estrofes regulares, quase sempre de decassílabos nas referências mitológicas, na frequência do hipérbato, na contenção e concisão altamente expressivas e lúcidas. Podemos ainda acrescentar que a poesia de Ricardo Reis é constituída com bases em ideias elevadas e odes, ou seja, na poesia de Reis é constante o Neoclassicismo. Para finalizar, podemos concluir que através da intemporalidade das suas preocupações, a angústia da brevidade da vida, a inevitável Morte e a interminável busca de estratégias de limitação do sofrimento que caracteriza a vida humana, Reis tenta iludir o sofrimento resultante da consciência aguda da precariedade da vida.

 Álvaro de Campos (1890 - 1935) é um dos heterónimos mais conhecido de Fernando Pessoa. Nascido em Tavira, teve uma educação de Liceu comum qualificada de «vulgar» pelo próprio Fernando Pessoa, posteriormente foi para a Escócia estudar engenharia mecânica, e depois engenharia naval. Fernando Pessoa, fez uma biografia para cada um dos seus heterónimos e declarou assim que Álvaro de Campos : «Nasceu em Tavira, teve uma educação vulgar de Liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Agora está aqui em Lisboa em inactividade.» Era um engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, mas sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte do mundo. Pessoa disse também em relação a este heterónimo que : «Eu fingi que estudei engenharia. Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda. Meu coração é uma avozinha que anda Pedindo esmolas às portas da alegria.» Entre todos os heterónimos, Campos foi o único a manifestar fases poéticas diferentes ao longo de sua obra. Houve três fases distintas na sua obra. Começa sua trajetória como um decadentista (influenciado pelo Simbolismo), mas logo adere ao Futurismo: é a chamada Fase Sensacionista, em que produz, com um estilo assemelhado ao de Walt Whitman (a quem dedicou um poema, a Saudação a Walt Whitman), versilibrista, jactante, e com uma linguagem eufórica onde abundam as onomatopeias, uma série de poemas de exaltação do Mundo moderno, do progresso técnico e científico, da evolução e industrialização da Humanidade: é muito influenciado por Marinetti, um dos nomes cimeiros do Futurismo neste período. Após uma série de desilusões com a existência, assume uma veia niilista ou intimismo: é conhecida como Fase Abúlica, e assemelha-se muito, sobretudo nas temáticas abordadas, à obra do Pessoa ortónimo: a desilusão com o Mundo em que vive, a tristeza, o cansaço («o que há em mim é sobretudo cansaço», assim começa um dos seus mais famosos poemas) leva-o a reflectir, de modo assaz saudosista, sobre a sua infância, passada na «velha casa»: infância arquetípica, de uma felicidade plena, é o contraponto ao seu presente. Uma fase caracterizada pelo cansaço e pelo sono que se denota bastante no pessimista poema Dactilografia da obra Poemas: «Que náusea de vida ! Que abjecção esta regularidade ! Que sono este ser assim !» No poema Aniversário Álvaro de Campos compara a sua infância, «o tempo em que festejava o dia dos meus anos» com o tempo presente, em que, afirma «já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias». Este é talvez o exemplo mais acabado - e mais conhecido - dessa mitificação da infância, por contraste à tristeza e descrença do poeta no presente.

publicado por musicg33ks às 19:54
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